“As minhas mãos. Os meus braços. O sol. Sinto os meus braços abertos ao sol que me inunda, que me trespassa e que sou. Sinto as minhas mãos cravadas na luz que desliza, que escorre, que entra dentro de mim, como um rio vertical. Sinto o olhar dela como este sol. As minhas mãos. O olhar dela. O sol. Eu sei que as minhas mãos estão paradas e silenciosas e inúteis e mortas. Sei que o olhar dela não me vê. Sei que o sol me derrota. O quarto. A cama. Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silencio. E, de novo, o olhar dela. Desenhado a fogo no interior do que em mim é impossível. Como se as palavras que nunca lhe disse saíssem agora deste sol para me arderem na pele. Como uma tempestade de vozes. Como laminas disparadas dentro do meu corpo. Nesta luz, as palavras que nunca lhe disse. Este sol que és os meus olhos cegos e eu sabe-los cegos. E, de novo, o quarto. O negro para lá de mim, que não vejo e que vejo, porque sei que existe e sei como a sua sombra me espera. E os olhos dela estão também nessa escuridão, solitários, abandonados.”